Como preparar chá

como se preparar chaO preparo de chás requer alguns cuidados para se extrair e, ao mesmo tempo, preservar o aroma e as substâncias responsáveis por suas propriedades terapêuticas. Dependendo da planta, deve-se escolher um método para preparar a bebida. Já vi pessoas que sempre preparam da mesma forma: jogam tudo na panela com água e deixa ferver! E não é bem assim, cada plantinha (ou parte dela) deve ter um tratamento especial para produzir o melhor chá possível!

Segue os métodos de preparo de chás:

Infusão: esperamos a água começar a ferver (quando aparecem as primeiras bolhinhas), vertemos a água em cima da planta seca ou fresca, depois abafamos com um pratinho e é só esperar alguns minutos. Eu prefiro abafar com um pratinho, pois acho que segura melhor os óleos essenciais do que um tecido. Eu já vi um trabalho que era sobre isso e o perfil dos óleos essenciais era bem melhor com um prato do que quando se usava o tecido. Este método de preparo é o mais adequado para folhas, flores e frutos, que são as partes que mais possuem óleos essenciais responsáveis pelo aroma da planta. O nome correto da bebida produzida é infuso, apesar de chamarmos popularmente de chá.

Decocção:  colocamos a planta na panela com água e deixamos ferver por alguns minutos. Esta forma é melhor para as partes mais duras da planta, que são mais difíceis de extrair, tais como caule, casca e raiz. A bebida produzida é chamada de decocto! Para preparar um chá de canela, esta é melhor maneira! Apesar da canela possuir os óleos essenciais que dão aquele cheirinho característico, ela é muito dura e vai ser extraída com mais eficiência por decocção. Caso a bebida a ser preparada seja uma mistura folhas e canela, por exemplo, pode-se fazer decocção com a canela e depois fazer a infusão com a folhas.

Fiz um post sobre o chá de hibisco (aqui) e lá eu disse que a maneira mais correta é a infusão, pois o hibisco possui antocianinas que são degradadas mais facilmente com temperatura. As antocininas das frutas são mais sensíveis ainda! Portanto, na hora de preparar chás com frutas, flores ou folhas, já sabem: infusão!

Então é isso! Se quiserem comentar, fiquem à vontade!

Bjs

 

 

Chá de hibisco

cha de hibisco

 

Conheci o hibisco há alguns anos atrás, ele estava longe de entrar na moda… Nesta época, ele era tão sem glamour que era comum ele entrar em blends de chá de “frutas vermelhas” ou “flores e frutas” e o nome dele nem aparecer em destaque na embalagem, só aparecia no ingredientes. Mas dava para perceber que ele estava lá pela sua cor vermelha, já que ele é rico em antocianinas.

O hibisco usado para fazer o chá é o Hibiscus sabdariffa, da família Malvacea, ele é parente próximo do quiabo, não é aquele ornamental vermelho muito encontrado em jardins (Hibiscus rosa- sinensis). Sua flor é como o da imagem acima, mas há variedades com. O chá é feito com as sépalas da flor que são desidratas e vendidas no mercado, esta parte é mais rica em antocianina. Tenho visto algumas embalagens no comércio que está escrito que a parte usada são flores e me parece que são pétalas, o que me deixa desconfiada se é o hibisco certo.

O hibisco é riquíssimo em substâncias antioxidantes, como as antocianinas, que são flavonoides de cor vermelha. Além das antocianinas, possuem outras substâncias interessantes, tais como: outros flavonoides (quercetina, kaempferol), ácidos orgânicos e vitamina C.

hibisco sepalasHoje em dia, ele está sendo muito usado como auxiliar no emagrecimento, mas ele é tradicionalmente conhecido por outras atividades biológicas já bastante estudadas pelos pesquisadores.

 

Atividades do hibisco que já foram comprovadas em testes clínicos (com pessoas):

  • diminuição da pressão arterial
  • diminuição do nível de triglicérides
  • diminuição do nível de colesterol total (apenas um estudo com cápsulas de extrato de H. Sabdariffa nas refeições)
  • diurético

As atividades antioxidante e antinflamatória também foram observadas em ensaios clínicos, mas com menor efeito se comparados com os estudos in vivo e in vitro.

Atividades observadas em estudos in vivo (animais) e in vitro: antiespasmódico (útero), antimicrobiana, antinflamatória, antioxidante, diurética, anticolesterol (diminui LDL, triglicérides e colesterol total), entre outras mais.

Há alguns estudos in vivo relacionando o hibisco à perda de peso, mas ainda não há estudos clínicos (com pessoas), apesar da moda  para a perda de peso. Como auxiliar no emagrecimento, o hibisco pode atuar nas condições associadas à obesidade, como a hiperlipidemia. Os mecanismos de ação do hibisco no emagrecimento estão sendo estudados, os possíveis mecanismos do extrato de hibisco são: atuação na adipogênese e inibição da enzima α-glucosidade e α-amilase, o que dificultaria a absorção de açúcar e amido.

O hibisco mostrou boa toxicidade aguda, o que significa que dificilmente alguém vai se intoxicar se ingerir grandes quantidades de chá de hibisco de uma vez!!! Mas, a longo prazo, deve-se tomar cuidado! A ingestão crônica de grande quantidade de extrato de hibisco a por muito tempo pode ser tóxico para o fígado (acima de 3g de extrato seco por Kg de peso corpóreo por mais de 3 meses). Uma recomendação que eu li que é que a ingestão segura seria de 2,2 g de cálice seco por dia para uma pessoa de 70 Kg.

A melhor forma de preparar o chá de hibisco é por infusão: adiciona-se a água quente ao hibisco seco e abafa (um pratinho em cima da panela). As antocininas de flores são mais estáveis que as de frutas, mas mesmo assim deve-se evitar ferver o hibisco (decocção) para não degradá-las, bem como outros compostos sensíveis à temperatura.

Pode ser que eu tenha esquecido alguma coisa importante… Deixem sugestões e comentários!

Bjs

 

Suplementos seguros

efedrinaHá uns anos atrás, era comum encontrar suplementos do tipo pré-treinos e termogênicos com estimulantes na composição. Estou me referindo à substâncias estimulantes diferentes da cafeína, pois esta é permitida no Brasil. E até alguns meses atrás, ainda era possível comprar suplementos com formulações que não eram permitidas no país. A Anvisa, agência que regula produtos e serviços relacionados à saúde no Brasil, já proibiu o uso deste tipo de substância em suplementos alimentares.

Afinal, o que são suplementos alimentares? São formulações usadas por via oral para complementar a dieta. Como o próprio nome diz, são alimentares! Aqueles utilizados para melhoras a performance, também são chamados de suplementos ergogênicos, como os pré-treinos e os termogênicos. Vale ressaltar que a Anvisa entende que o uso de suplemento deve ser direcionado a atletas, ela não faz recomendação para praticante de atividade física ou para fins estéticos. Eu só estou deixando claro a forma que a Anvisa trata o assunto! Eu não sou atleta e gosto de usar de suplementos!

Em relação à substâncias estimulantes, uma que foi muito usada e ainda é utilizada, apesar o perigo que ela oferece, é a efedrina. Vou usar a efedrina como exemplo, mas existem outras substâncias estimulantes que oferecem risco à saúde. A efedrina é um simpatomimético, é assim que chamamos uma substância que imita o efeito da adrenalina no corpo. Quando liberamos adrenalina na hora de um susto, ela se liga em receptores espalhados em vários locais do corpo, por isso a gente consegue sentir seu efeito de várias maneiras. Existem fármacos mais específicos na forma de atuar, que se ligam especificamente em alguns receptores. A efedrina se liga em vários tipos de receptores e, mesmo quando utilizada para fins medicinais, ela vai apresentar alguns efeitos colaterais. Como medicamento, ela é utilizada como broncodilatador e pode apresentar efeitos colaterais, tais como aumento da pressão arterial, arritmia cardíaca, insônia, entre outros. A minha opinião bem parecida com a da Anvisa:

Uma substância que apresenta ação farmacológica não pode ser considerada como suplemento alimentar.

Não interessa se na formulação do suplemento, ela foi usada na forma de um sal puro ou de uma planta de uso medicinal! Não é por ser uma planta, que deixa de apresentar riscos (leia esse post aqui). Enfim, no caso de uma doença, pesa-se os prós e os contras de se usar um determinado medicamento. No caso de um suplemento alimentar, a pessoa está em boa saúde e não há motivo para correr o risco de se usar um medicamento! Mesmo se a pessoa for jovem, muitas vezes ela não sabe se tem algum problema cardíaco ou psiquiátrico que pode aparecer ou se agravar com o uso de algum estimulante.

Eu fico bastante preocupada com os suplementos vendidos no Brasil. Sou muito desconfiada em relação à adulteração ou se o rótulo diz exatamente o que está sendo vendido.

E como eu vou saber se o suplemento que estou usando é seguro?

Assault
Exemplo de suplememento com certificado anti-doping

Como não tem como levarmos os suplementos para o laboratório para fazer uma análise química, acho uma boa ideia verificar se o suplemento tem certificação anti-doping. No Brasil, não existe certificação para suplementos alimentares, mas há uma instituição da África do Sul que analisa os produtos e certifica aqueles que são livres de substâncias que configuram doping. Para quem quiser dar uma olhada, o link para a lista está aqui. Nesta lista, estão várias marcas conhecidas e vendidas aqui no Brasil, com a Optimum Nutrition e Musclepharm. Acho que esta lista pode ajudar na escolha do pré-treino e outros suplementos, mas o mais importante, na minha opinião, é usar suplementos com a orientação de um nutricionista ou médico. Acho que não vale a pena fazer uso de suplementos por conta própria, na verdade, a prescrição de uma dieta adequada à necessidade de cada um vai produzir resultados melhores!

 

Se esse post ajudou em alguma coisa, deixem comentários! Sugestões são bem-vindas!

Farmácia no nosso dia a dia

farmácia medicamentoEu estava pensando no que eu iria escrever no blog e vi que hoje era 20 de janeiro, dia do farmacêutico. Então, decidi comemorar o dia da minha profissão e escrever sobre alguns conceitos relacionados à Farmácia que costumam causar confusão nas pessoas.

No dia a dia, vejo as pessoas usando as palavras remédio, medicamento e droga como se tudo fosse a mesma coisa! Não que isso seja um problema! Mas, para quem quiser saber, vou dar uma explicação bem simples.

Droga ou fármaco é a substância que vai ser utilizada para fazer o medicamento. Atualmente, as pessoas tem usado mais a palavra “droga” que vem da tradução do inglês “drug”. Eu, particularmente, prefiro o nome tradicional mesmo – fármaco – mas os dois estão corretos, pois até a Anvisa adota o nome “droga”. Já medicamento é o produto elaborado utilizando-se o fármaco (droga) na indústria ou farmácia. Para ser chamado de medicamento, o fármaco vai estar apresentado em uma forma farmacêutica, ou seja, vai estar em forma de cápsula, solução, suspensão, óvulo etc. Quando comercializado ou fabricado no Brasil, o medicamento precisa necessariamente ter passado por ensaios clínicos e ser autorizado pela Anvisa. Quando o medicamento ainda não passou por ensaios clínicos, chamamos de medicamento experimental.

Usando um caso que ficou famoso na mídia como exemplo: a fosfoetanolamina seria o fármaco ou droga, a cápsula contendo a fosfoetanolamina seria o medicamento, mas como ainda vai passar por ensaios clínicos, é um medicamento experimental.

E o remédio?

Remédio pode ser qualquer coisa ou cuidado que alivia algum sintoma, cura ou traz bem estar, tais como: um medicamento, um chá bem quentinho, uma oração ou um beijinho da mamãe! E quem vai falar que beijinho da mamãe não tira a dor e sara machucado? Então é remédio!

Litografia de Charles-Henri Bethmont de 1850. retratando plantas venenosas, a morte de Sócrates, o farmacêutico e o herbalista na antiguidade.
Litografia de Charles-Henri Bethmont de 1850 retratando plantas venenosas, a morte de Sócrates, o farmacêutico e o herbalista na antiguidade.

Outros nomes que fazem bastante confusão são fitoterapia e homeopatia. Antes de qualquer coisa, um esclarecimento sobre as plantas medicinais: o fato de ser da natureza não significa que não pode ser perigoso! Grande parte dos fármacos que temos hoje foram identificados na natureza! O uso medicinal de forma incorreta pode causar intoxicação e pode até interagir com algum medicamento que o paciente faça uso.

Portanto, cuidado quando alguém usar a expressão “é natural”!

Continuando… Um fitoterápico é um medicamento preparado a partir de plantas medicinais. Por ser um medicamento, ele é apresentado em uma forma farmacêutica, passou por controle de qualidade, possui posologia e, por ser padronizado, ele sempre vai apresentar a mesma concentração do princípio ativo. O medicamento fitoterápico possui registro na Anvisa.  Já a planta medicinal (inteira ou partes dela, seca, triturada ou não) é chamada de droga vegetal e não é registrada na Anvisa. Novamente, a minha orientação é cuidado com o uso!

E a homeopatia? O medicamento homeopático é um medicamento dinamizado (diluído e agitado muitas vezes, muitas vezes mesmo!!!) obtido a partir de planta, animal ou mineral. Isso significa que pode ser produzido até a partir do veneno de uma abelha, mas sempre seguindo os conceitos da homeopatia. As formas farmacêuticas mais comuns são os glóbulos de açúcar e solução.

Assim, quando se fala em plantas medicinais e fitoterapia, não é a mesma coisa que homeopatia!

Em relação a dúvidas sobre medicamentos e assuntos deste tipo, converse com o farmacêutico! Nas farmácias, eles costumam estar identificados e podem conversar e dar informações sobre o uso de medicamentos.

Consegui ser esclarecedora ou fiz mais confusão? Se eu deixei de abordar algum tópico importante, sugiram nos comentários e aí eu falo em outro post!

Ômega 6 e ômega 3

omega 6 omega 3

omega 6 omega 3

Já faz bastante tempo que é um consenso no mundo da saúde que uma dieta saudável deve incluir uma quantidade de gorduras, mas só aquelas consideradas “boas”. E quando se pensa em gorduras “boas”, logo já vem à cabeça estes termos: ácidos graxos polinsaturados (PUFAs), ômega 6 e ômega 3. Mas, afinal, o que são ômega 6 e 3?

Agora vem uma parte meio chata, quem quiser pode pular para a parte legal… Entre dois carbonos pode existir uma ligação simples, dupla ou tripla. Para um ácido graxo ser considerado polinsaturado ele deve conter mais de uma ligação dupla –insaturação– na sua cadeia carbônica. Como na Química existem regras para se dar nome às substâncias, o número 3 e 6 (existe também o 9!) se refere ao número do carbono da primeira insaturação, contando a partir da ponta não-ácida (sem carboxila). Eles são considerados ácidos graxos essenciais, pois são necessários para o nosso organismo, mas não conseguimos produzi-los. O principal representante dos ω6 é o ácido linoleico e o do ω3 é o ácido alfa-linolênico. Esses ácidos graxos essenciais possuem diferentes papéis no organismo, eu poderia até escrever um outro post só falando sobre a relação deles com o metabolismo cerebral… Fim da parte chata!

Agora a parte legal! Nos tempos modernos, devido à evolução da agricultura e modernização da indústria de óleos, começamos a ter mais disponibilidade de óleos vegetais ricos em ômega 6. E, a partir da década de 50, foram publicados vários estudos relacionando o consumo de polinsaturados (leiam a pergunta no final do post), especialmente o ω6, com a diminuição dos níveis de colesterol. Assim, nos últimos 100 anos, tivemos um aumento considerável da ingestão de ω6, alterando a proporção em relação à ingestão de ω3.

Aqui no Brasil, se conversarmos com as gerações passadas (avós, tios…), não é difícil encontrar gente que não tinha contato com óleo de soja e que estavam acostumados a comer alimentos preparados em gordura de origem animal. A vida moderna nos proporcionou uma alimentação com uma proporção entre ômega 6 e 3 diferente daquela de anos atrás… Alguns trabalhos científicos relatam que os países ocidentais possuem alimentação com uma razão ω6/ω3 de 15-20:1 (15 a 20 partes de ω6 para cada uma de ω3). E esses estudos afirmam que essa razão já foi de 1:1!

E o que acontece com essa alteração na proporção de ω6 e ω3?

As nossas células (de mamíferos) não conseguem converter ω6 para ω3, pois nos falta uma enzima para fazer isso. E estes possuem funções distintas no nosso organismo, por isso o balanço desses ácidos graxos essenciais é muito importante para uma boa saúde. Com o aumento da ingestão de ω6, a cascata do ácido araquidônico vai ser mais ativada, produzindo mais eicosanoides relacionados à inflamação. Tudo isso é muito complexo e seria muito cansativo dar maiores explicações. Vou colocar uma imagem de um trabalho científico só para vocês terem ideia da complexidade…

Fonte: TITOS & CLARIA, Prostaglandins & Others Lipid Mediators, v. 107, p. 77-84, 2013
Fonte: TITOS & CLARIA, Prostaglandins & Others Lipid Mediators, v. 107, p. 77-84, 2013

Com esse aumento da ingestão de ω6, as nossas células adiposas ficam em estado inflamatório leve, porém, crônico e esse estado estaria relacionado a uma alteração metabólica de forma a promover a obesidade, entre outras coisas.

É por isso que algumas pessoas estão fazendo uma tal de dieta paleolítica! Na verdade, eu não sei se é necessário comer igual a um homem das cavernas… Talvez seja mais fácil fazer algumas alterações na alimentação, introduzindo alguns alimentos ricos em ω3 e diminuindo os óleos ricos em ω6. O ideal é procurar a ajuda de um nutricionista para ele prescrever uma dieta com boa proporção de ω6 e ω3. De qualquer forma, segue alguns alimentos ricos em ω3: peixes (salmão, bacalhau, sardinha etc.), chia, linhaça, ovo caipira de verdade, laticínios de gado alimentado em pastagem. A manteiga de gado confinado é bem branquinha e a de gado que come pasto tem uma cor amarela sem precisar de corante. Esse tipo de manteiga é difícil de encontrar em cidades grandes, mas é muito comum em cidades pequenas de Minas e Goiás.

Eu andei olhando a antiga Emulsão de Scott (óleo de fígado de bacalhau), que as mães davam para as crianças ficarem inteligentes, mas não gostei do fato de ter óleo de soja na formulação.

Uma pergunta: se o ideal é a ingestão de gordura polinsaturada, por que muita gente anda consumindo gordura saturada (óleo de coco)? Isso eu vou falar em outro post…